quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A censura de imprensa


Vou aproveitar a fala do Lula hoje para desenterrar a velha idéia de um texto, que estou enrolando há algum tempo para escrever. Hoje, nosso ainda presidente deu uma entrevista para blogueiros e falou sobre tudo, claro que tudo não vai tudo o que queríamos ouvir, até porque os blogueiros foram caprichosamente escolhidos.

Não vou criticar o Lula por ter feito assim, mas vou concordar com Marcelo Tas, era o momento de pelo menos alguma abertura a críticos. Não a críticos talibãs, tal qual aquele senhorzinho da Veja, pois viraria baderna. De qualquer forma, a idéia de uma coletiva, da forma que foi feita, uma mesa redonda praticamente, com transmissão integral do conteúdo online, via Twitcam, é de se aplaudir. Só na própria Twitcam oficial, houve pico de 7 mil acessos, sem contar os acessos por outros sites que transmitiam. Isso sem falar que a divulgação do evento também não foi tão grande assim. Isso deixa claro que as pessoas sentem falta desse tipo de aproximação com seus representantes.

Isto posto e contextualizada a situação, vamos à frase que motiva este texto: “Não existe maior censura do que a idéia de que a mídia não pode ser criticada.” A frase foi forte e estou ansioso para ler o que muitos críticos terão a dizer. Mas eu tenho o seguinte a dizer: concordo 100% com a afirmação.

É o seguinte, em um regime político ditatorial, a censura é às claras, todo mundo sabe como ele acontece. O Governo tem o poder e pronto: corta dali, corta daqui, não publica, manda prender, faz o diabo. Mas todo mundo sabe como a banda toca direitinho, todo mundo sabe que as coisas devem sair do jeito que o Governo quer e ponto. Todo mundo sabe da parcialidade, da visão extremista e quem está no poder não fica se preocupando em se parecer imparcial. Faz o seu e nem quer saber de mais nada.

Mas o que vivemos hoje é tão lamentável quanto uma ditadura no sentido da liberdade de expressão. Claro que aqui não estou falando dos horrores da prisão, das torturas, dos assassinatos dos ‘inimigos’ do Estado. Contudo, existe uma ‘ditabranda’ que não permite que se fale tudo o que se quiser, critique-se aquilo que der na teia. Mesmo respeitando os limites da boa convivência, de alguns não se pode falar mal hoje no Brasil.

Peguemos o caso recente da “Falha de São Paulo”, uma paródia da “Folha de São Paulo”, que foi proibida por decisão judicial de continuar com suas críticas. O jornal da família Frias tem suas seções de charges, piadas e acha muito ruim quando vem o governo e diz que pode criar um organismo público que verifique a qualidade da imprensa. Mas ele não suportou a piada feita com ela, de seus absurdos publicados e entrou na justiça para não ser mais chacota.

A “Folha de São Paulo” tem dinheiro para pagar bons advogados e bater em quem quiser ridicularizá-la, mas ela não pensa duas vezes quando publica uma notícia falsa (lembram do forjado muro de dinheiro estampado na primeira página na reta final das eleições de 2006?) e depois não faz nem retratação. E ela se sente no direito de publicar o que quiser, pois diz que a constituição lhe garante isso, mas não quer saber disso em relação a quem a critica. Contraditório, não?

Em um caso também bem esquisito se envolveu “O Estado de São Paulo”, que não gostou nada do que Maria Rita Kehl escreveu em um texto intitulado, Dois pesos. A psicóloga criticou duramente o eleitorado paulistano de José Serra que, para ela, julgava seu voto superior ao do restante do país. Em nenhum momento, ela critica o jornal, aliás, o elogia por deixar claro que apoiava Serra. Mas a diretoria do jornal entendeu que a crítica feita a seus leitores, e maciçamente os leitores do Estadão são tucanos, pegou mal e demitiu sua colunista. No Twitter, o comentário foi grande e incomodou a direção do jornal.

De fato, não é nenhum crime mandar embora alguém de um jornal, principalmente quando essa pessoa não está fazendo aquilo que é desejado. O Estadão tem sua linha editorial e a trabalha da forma que bem entender. Se ele tem tantos leitores, deve ser porque muita gente gosta desta linha. Contudo, a justificativa do jornal é que pegou mal, não quis atribuir a demissão da psicóloga ao texto, tentou sinalizar que é comum a mudança dos colunistas. Ora, então, quer dizer que os dias delas já estavam contados e só foi uma infeliz coincidência o texto? É chamar quem leu a justificativa de idiota. Na verdade, o jornal não queria, em meio ao processo eleitoral, sair manchado por mandar embora alguém que não concordava com os leitores do jornal, isso poderia parecer pouco democrático e até refletir mal na campanha do candidato que ele apoiava.

A Globo talvez seja a que goste mais de mostrar seu poder. Voltando às eleições, a Globo levou um perito em vídeos para mostrar que, em uma passeata no Rio de Janeiro, o candidato José Serra havia sido vítima de um objeto não identificado que bateu em sua cabeça. O vídeo era grotesco e os sinais de montagem eram gritantes. Logo a Rede Globo tinha virado piada no Twitter. Então, a postura da emissora foi dar mais pano para manga dessa história e chamou outro perito, Fátima Bernardes no Jornal Nacional parecia falar do caso com a mesma comoção de que falava da morte do Papa João Paulo II. E não deu outra, virou piada.

Nesses três casos, fica claro que nenhum órgão de imprensa quer virar piada, mesmo quando faz mal seu trabalho. Nenhum quer ter suas decisões questionadas, muito menos por aquelas pessoas a quem eles devem seus salários pagos: seus leitores, seus telespectadores. Com a Internet, quem estava lançado à sorte de toda baboseira escrita, editada, filmada, gravada e que comprava isso como informação começou a ter voz, pôde começar a rebater isso. E isso tem incomodado muita gente!

Aliás, Marcelo Tas esses dias escreveu no Twitter perguntando o papel da nova imprensa. Eu respondi que não sabia qual seria o papel, mas a descentralização da informação na mão dos principais veículos de comunicação incomodará muito muita gente. E é exatamente pelas reações acima citadas que digo isso. A imprensa não quer nem saber de pessoas fazendo propaganda contra elas, vide o que aconteceu com o pessoal da “Falha”. Durante a Copa, foi proposto um #diasemglobo e a emissora chegou a entrar com um pedido na justiça para que a hastag fosse tirada do Twitter, ou pelo menos deixasse de aparecer nos Trending Topics.

A frase de Lula está corretíssima. Essa censura que a mídia impõe a quem a critica é a maior das censuras, pois ela vem travestida de liberdade de expressão, quando na verdade ela faz parte do sistema “chora menos quem pode mais”. Sim! Esse é o sistema, não muito longe do que faz uma ditadura. Só que nessa ‘ditabranda’, a censura é conseguida na base do dinheiro, nos tribunais e do jeito que a lei manda.

3 comentários:

Luciane Klinke disse...

Muito bom seu comentário André.
Jornalistas dos PIG estão creditando a salvação do Banco Panamericano pelo governo em troca das reportagens do SBT que derrubaram o suposto "ataque" a Serra no Rio.
Como vc vê isso ?

Cristian disse...

O grande problema é: como se dará a descentralização da mídia? o governo vai financiar empresas para fazer jornalismo “independente”? Penso que o melhor caminho é que cada um possa escrever e mostrar o que lhe der na telha. Se tem público, continua; se não tem, pára. Se publica mentiras sobre alguém ou alguma instituição, que sinta o peso da lei. Aliás, essa sim teria de ser bem cuidada para não acontecer mais casos como o da "falha".

André Henriques disse...

Olá, Luciane! Obrigado pela visita.

Penso que esse tipo de crítica não se sustenta pelo fato de que o banco não foi salvo com dinheiro público. Existe um fundo bancado por todas as instituições financeiras do país para esse tipo de situação. O que não ficou claro é como a Caixa comprou parte do Panamericano com todos esses problemas. Acho que seria bom o Governo mostrar quais são as medidas que um banco público toma antes de adquirir ações de um banco privado. Mas... antes fossem todos os banqueiros como é o Silvio Santos!


Então, Maninho, eu penso o seguinte. A descentralização já está acontecendo e o Twitter, na minha opinião, é o ícone disso, da divulgação de opiniões fora da mídia tradicional. Acho que o governo não tem que bancar nada, mas se criar um órgão para avaliar conteúdos, principalmente se isso vier a colocar nos devidos horários certos tipos de programas, acho que pode ser válido. E concordo em relação a lei e digo mais, cuidemos mais de nossa jurisprudência para ver exatamente como é que banda está tocando.