segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Vitória de quem?

Em 2007, antes dos Jogos Panamericanos no Brasil, policiais do BOPE foram assassinados no Rio de Janeiro. Uma ação vingativa, de certo modo, e que também pretendia estabelecer um controle sobre a violência durante o evento esportivo acabou com tiroteios, mortos, alguns presoso e domínio temporário do complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro pela PM Fluminense.

A foto abaixo mostra a bandeira do BOPE hasteada em comemoração por uma semana de ocupação das favelas da Penha, em 2008. Em uma nova operação da PM, tiroteios, mais mortos, mais alguns presos.

Assistimos desde a semana passada uma verdadeira operação de guerra no Rio. Traficantes, teoricamente irritados com expansão das UPPs (Unidade de Polícia Pacificador, fazem parte da política de segurança do Rio desde o final de 2008), começaram a promover arrastões e queimas de veículos em represália. Mais uma vez a região das favelas do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro viraram campo de batalha e mais uma vez estão ocupadas pela Polícia Militar do Rio, agora com ajuda das Forças Armadas e da Polícia Federal. A situação vem sendo veicula como uma grande vitória do poder público contra o tráfico de drogas, mas será mesmo que há algo para se comemorar, lembrando que já outras ocupações existiram?

O que vem me chamando muito a atenção até agora nas coberturas jornalística é esse clima vitória e a forma como a vida copiou a arte. Sim, Tropa de Elite deixou de ser apenas um filme inspirado nas práticas do BOPE e começou a ser inspiração para a forma da Polícia Militar do Rio se portar frente aos microfones. É um pastelão sem nenhum estilo!

Por mais que o filme retrate o comportamento dos policias do BOPE, jamais um policial de verdade pode repetir algumas idéias e bordões. Eu vi um policial falar que o perdão dos traficantes cabe a Deus, ao BOPE só cabe promover esse encontro. Isso é lamentável! Por mais que eles tenham a intenção de promover uma carnificina, o que já não é louvável, é ridículo querer aparecer usando esse tipo de frase de efeito para parecer com o filme.

Perdeu-se a noção do ridículo. Bandeiras do Rio, do Brasil e do próprio BOPE estão novamente hasteadas nos territórios das favelas como símbolo da vitória. Fazer tipinho agora vale declarações em rede nacional. Só falta agora os policiais e militares com um “Filma nóis, Galvão”.

Mas sobre quem mesmo é essa vitória? As cenas que mostravam os bandidos com armas eram tristes. Você via claramente pessoas sem nenhuma perspectiva dispostas a matar e morrer em nome de nada! Sim! Nada! O morro estava tomado por traficantes, pessoas que lidam com drogas, armas e muita grana, mas sem ideologias, sem a intenção de promover nada além de uma melhor vida financeira pessoal e olhe lá!

De fato, não são inocentes e nem faziam nada do que faziam por algum tipo de obrigação. Mas são bestializados, gente esquecida e que viu o tamanho do buraco que existe entre Estado e a sociedade para fazer seu negócio. Eu sempre achei que, quando algum político resolvesse combater o crime organizado, era praticamente impossível que não houvesse uma grande batalha armada. Ora! Quem está na boa não vai largar o osso assim tão fácil, principalmente se tiver condição de dificultar. Mas só o combate armado não resolverá o problema, pois a bandidagem se instalou onde o Estado nunca esteve. Ou o Estado cumpre com suas funções básicas e promove Educação, Saúde e Segurança ou será questão de tempo para tudo voltar a como era antes.

A vitória anunciada aos quatro ventos hoje pela mídia é uma vitória da repressão do Estado contra aqueles que eram obrigação do Estado cuidar. E os resultados estão para lá de nebulosos. Diziam que estavam no Complexo do Alemão, ontem antes da invasão da PM, cerca de 500 bandidos. Até agora não chega a 50 o número de prisões feitas e como não existiu nenhuma morte nesta operação, fica a pergunta: onde estão os outros? (E ainda a gente tem que agüentar esse ar de "dever cumprido", pode?)

Outra questão nebulosa está em relação ao futuro dessas operações no sentido das investigações. O que será feito? Será de fato desmantelado o esquema que permite o contrabando de armas de grosso calibre e drogas no Brasil? Ou isso é só para levar a cabeça de alguns a prêmio e tirar uma foto legal para dar boa impressão através dos jornais? Até agora ninguém importante foi preso e a gente sabe que sem um figurão o esquema do tráfico não funciona.

O fato é os que financiam (aqueles que fumam, cheiram e injetam as 40 t de drogas apreendidas) e os que lucram alto sem por mão na sujeira estão tranqüilamente em suas casas, longe dali, vendo o coro comer e pensando no que fazer, em como não deixar a ‘roda’ parar de girar. Se as investigações promovidas pelo Estado não forem atrás dessa gente, nada mudará, pois outras ofensivas – em menor escala – já existiram por parte da polícia e a situação de 2007 para cá não mudou. Só quando essas pessoas sofrerem com a repressão, Estado brasileiro dará de verdade um duro golpe no tráfico de drogas.

Enquanto isso, policiais fazem pose ao lado de suas presas (a foto é do traficante Zeu, assassino de Tim Lopes), a imprensa brasileira brinca de fazer cobertura de guerra, alucinada por nossos ‘Sadans’ e ‘Bin Ladens’, as pessoas fingem acreditar que o ‘inimigo’ foi derrotado e a gente espera até a próxima batalha campal nos morros cariocas.

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